Leitura no Brasil vive um momento contraditório: o país perdeu 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024, segundo o Instituto Pró-Livro, enquanto o mercado editorial ganhou 3 milhões de novos compradores só em 2025. Os números mostram que ler e comprar livros seguem, cada vez mais, caminhos diferentes por aqui. Um hábito em queda, um mercado em expansão Ter um livro em casa e efetivamente terminá-lo são coisas cada vez mais distantes na rotina brasileira. Essa distância explica boa parte da aparente contradição em torno do tema: é possível o mercado editorial crescer enquanto o hábito de leitura encolhe, e é exatamente isso que os dados mais recentes mostram. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, realizada pelo Ipec com 5.504 pessoas em 208 municípios, o país registrou em 2024 a primeira inversão desde 2007: os não-leitores (53%) ultrapassaram os leitores (47%), conforme reportagem publicada pela Revista Oeste. Em 2019, a proporção ainda era favorável à leitura, com 52% de leitores contra 48% de não-leitores. O recorte por sexo também chama atenção: as mulheres somam cerca de 50 milhões de leitoras no país, contra 43 milhões de homens, segundo dados divulgados pelo G1. E a queda não afeta todos os grupos da mesma forma: os únicos segmentos que não perderam leitores nesse período foram as crianças de 11 a 13 anos e os adultos com mais de 70 anos, um dado que sugere que o problema se concentra na fase de transição entre a infância e a vida adulta, quando trabalho, estudo e telas competem pelo tempo livre. Leia Também: “Rotina de Leitura Produtiva: Como Ler Mais em Menos Tempo“ De onde vem o desinteresse pela leitura O afastamento da leitura raramente acontece de forma súbita. Segundo reportagem publicada pela UEPG, o Instituto Pró-Livro aponta desigualdade social, baixo investimento em políticas públicas e falta de estímulo desde a infância como fatores centrais para a queda de leitores no país. A professora Juliana Bilek, ouvida por essa mesma reportagem, resume o processo com uma frase direta: “uma criança de 0 a 5 anos não lê sozinha. Se não houver um adulto que proporcione esse momento, o contato simplesmente não acontece.” Ela também pondera que o problema não está nas telas em si, mas no uso que se faz delas: “a criança só tem acesso ao que é oferecido a ela. Se o universo dela for mais voltado para vídeos e celulares, é natural que a leitura perca espaço.” Os números confirmam essa disputa por atenção desde cedo: 78% das crianças de 0 a 3 anos e 94% das crianças de 4 a 6 anos já são expostas diariamente a telas, segundo o levantamento Panorama da Primeira Infância, do Instituto Fundação Maria Cecília Vidigal. A estudante Natália Mendes, entrevistada pela reportagem da UEPG, ilustra bem o que acontece quando esse padrão avança para a vida adulta: mesmo tendo sido incentivada a ler desde criança, ela hoje mantém uma média de sete a oito livros por ano, prejudicada por uma rotina dividida entre trabalho e estudo. Parte do problema também tem relação com alfabetização funcional. O Censo 2022 mostrou que 93% da população com 15 anos ou mais já é alfabetizada, restando 7% de analfabetos, o equivalente a 11,4 milhões de pessoas. No Paraná, por exemplo, 57% da população declara ter lido ao menos parte de um livro nos últimos três meses, um índice acima da média nacional. Ainda assim, saber ler as letras não garante o hábito de leitura frequente, e iniciativas digitais como o MEC Livros e a Biblioteca Digital do Brasil já registram mais de 1 milhão de livros lidos por estudantes da rede pública, mostrando que o acesso existe, mas depende de mediação constante. Leitura fragmentada é o termo usado para descrever o consumo de pequenos blocos de texto, como mensagens, legendas e notificações, sem o esforço de concentração exigido por uma obra completa. Esse padrão de consumo digital ajuda a explicar por que o brasileiro processa uma quantidade enorme de palavras todos os dias sem, no entanto, ler mais livros. O paradoxo brasileiro: cai a leitura no Brasil, sobe a compra de livros O Panorama do Consumo de Livros é uma pesquisa anual da Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a Nielsen BookData, que mede quantas pessoas compram livros no país, independentemente de quantas terminam a leitura deles. Em 2025, 18% da população com 18 anos ou mais adquiriu ao menos um livro, impresso ou digital, nos últimos 12 meses, um crescimento de 2 pontos percentuais em relação a 2024, o equivalente a 3 milhões de novos consumidores, segundo dados divulgados pela Câmara Brasileira do Livro. O levantamento ouviu 16 mil pessoas maiores de 18 anos em todas as regiões do país, entre 13 e 19 de outubro de 2025, com margem de erro de 0,8%. “O crescimento de 3 milhões de novos consumidores em um único ano mostra que o livro mantém sua relevância e que há espaço consistente para a expansão do mercado editorial brasileiro”, afirma Sevani Matos, presidente da CBL. Ela atribui esse avanço a um conjunto de fatores que vai além das editoras: “esse avanço é resultado de um ecossistema que envolve editoras, livrarias, autores, influenciadores, políticas públicas e iniciativas de incentivo à leitura.” As faixas de 18 a 34 anos puxaram esse crescimento, somando juntas um avanço de 3,4 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Parte dessa alta tem explicação em um fenômeno específico: os livros de colorir. Somente em 2025, 7,1% da população adulta brasileira, cerca de 11 milhões de pessoas, comprou pelo menos um exemplar do gênero, o que representa 40% de todos os consumidores de livros do país. Segundo Mariana Bueno, coordenadora de pesquisas da Nielsen BookData, os títulos de ficção Young Adult também tiveram “papel decisivo nessa alta”, por dialogarem com um público jovem e conectado. Quem é o novo consumidor de livros no Brasil O perfil de quem compra livros hoje revela mudanças demográficas relevantes. As mulheres representam 61% do mercado consumidor de livros no país,

