Conheça a trajetória de Sueli Carneiro, filósofa, escritora e referência do feminismo negro no Brasil. Veja suas obras, ideias e legado para a literatura.
Sueli Carneiro: trajetória, obras e legado de uma das maiores intelectuais do feminismo negro no Brasil
Sueli Carneiro é uma das mais importantes intelectuais brasileiras quando falamos de racismo, feminismo negro e direitos humanos. Filósofa, escritora e ativista, ela é referência central para compreender as desigualdades raciais e de gênero no Brasil e para pensar projetos de transformação social.
Neste artigo, o Consciência Literária apresenta quem é Sueli Carneiro, sua trajetória, suas obras mais relevantes e por que seu pensamento é essencial para leitores, estudantes, educadores e para qualquer pessoa interessada em justiça social.
Quem é Sueli Carneiro?
Aparecida Sueli Carneiro Jacoel nasceu em 1950, na cidade de São Paulo. Filha de um ferroviário e de uma dona de casa, cresceu em uma família negra trabalhadora que vivenciou, na prática, as barreiras do racismo estrutural brasileiro.
Sueli ingressou no curso de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) em 1971, em plena ditadura militar, período em que se aproximou dos movimentos negro e feminista. Ali começa a se consolidar sua atuação como intelectual pública, articulando filosofia, militância e produção de conhecimento.
Ao longo da carreira, Sueli Carneiro se tornou:
- Filósofa e doutora pela USP (na área de Educação/Filosofia da Educação);
- Fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, criado em 1988, organização fundamental na defesa dos direitos das mulheres negras;
- Uma das principais pensadoras do feminismo negro no Brasil, com forte atuação em debates sobre cotas raciais, políticas públicas e direitos humanos.
Atuação política e intelectual: Geledés e o movimento negro
Um dos marcos da trajetória de Sueli Carneiro é a criação do Geledés – Instituto da Mulher Negra, primeira organização negra e feminista independente de São Paulo, que atua em áreas como enfrentamento ao racismo, promoção da saúde da população negra, defesa de direitos e produção de conhecimento.
A partir do Geledés e de sua participação em diversos espaços públicos, Sueli:
- Denuncia o racismo como estrutura que organiza a sociedade brasileira;
- Mostra como o sexismo e o racismo se articulam na vida das mulheres negras;
- Pressiona o Estado por políticas de ação afirmativa, como as cotas raciais nas universidades;
- Produz artigos, pareceres e textos que influenciam leis, programas e debates acadêmicos.
Essa combinação de militância e reflexão teórica faz de Sueli Carneiro uma intelectual orgânica, isto é, alguém que produz conhecimento a partir das experiências concretas da população negra e de seus movimentos sociais.
Principais obras de Sueli Carneiro
Sueli Carneiro tem uma produção extensa, com artigos, ensaios, livros e entrevistas. Entre suas obras mais conhecidas, destacam-se:
1. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil
Publicado originalmente em 2011, este livro reúne artigos escritos entre 2001 e 2010, em que Sueli analisa como racismo e sexismo se entrelaçam na sociedade brasileira. Ela discute temas como violência policial, mídia, direitos reprodutivos, democracia e políticas públicas.
É uma obra fundamental para quem quer entender:
- Como as desigualdades raciais são produzidas e mantidas;
- Por que as mulheres negras são o grupo mais afetado pela pobreza e pela violência;
- De que forma as lutas feministas e antirracistas se conectam.
2. Continuo Preta: a vida de Sueli Carneiro, em primeira pessoa
Este livro, organizado por Bianca Santana, apresenta a trajetória de Sueli Carneiro em formato de relato biográfico, construído a partir de memórias, entrevistas e documentos. A obra mostra a infância, a formação, a militância e as conquistas da autora, sempre conectadas à história do movimento negro brasileiro. Acervo Casa Sueli Carneiro
3. Textos acadêmicos e ensaios
Além dos livros, Sueli Carneiro publicou dezenas de artigos em jornais, revistas e coletâneas, abordando temas como:
- Dispositivo de racialidade e biopoder (inspirada em Foucault);
- Epistemologias feministas negras;
- Políticas de ação afirmativa e cotas raciais;
- Representação da população negra nos meios de comunicação.
Essa produção faz com que ela seja frequentemente citada em trabalhos de graduação, pós-graduação e pesquisas sobre raça, gênero, educação e direitos humanos.
Temas centrais do pensamento de Sueli Carneiro
Racismo estrutural e dispositivo de racialidade
Para Sueli Carneiro, o racismo no Brasil não é apenas um conjunto de preconceitos individuais, mas um dispositivo de poder que organiza a sociedade, distribui privilégios e define quem vive e quem morre com mais ou menos dignidade.
Inspirada em Michel Foucault, ela mostra como o Estado, a escola, a mídia, o sistema de justiça e as políticas públicas produzem e reproduzem o racismo, muitas vezes de maneira “naturalizada”.
Feminismo negro e protagonismo das mulheres negras
Sueli Carneiro é uma das principais vozes do feminismo negro brasileiro. Ela critica tanto o feminismo hegemônico, que muitas vezes ignora a questão racial, quanto as leituras sobre raça que deixam de fora a experiência das mulheres.
Para ela, é impossível falar de igualdade de gênero sem enfrentar:
- A exploração do trabalho das mulheres negras;
- A violência doméstica, sexual e obstétrica;
- A ausência de mulheres negras em espaços de poder.
Epistemologias negras: quem tem o direito de produzir conhecimento?
Outro ponto central do pensamento de Sueli Carneiro é a disputa por epistemologia, isto é, por quem é reconhecido como produtor de conhecimento. Ela denuncia o apagamento de intelectuais negras e negros e afirma a importância de levar as experiências da população negra para o centro do debate acadêmico e político. sites.utexas.edu
Prêmios, reconhecimentos e impacto internacional
Ao longo de sua trajetória, Sueli Carneiro recebeu diversos prêmios e homenagens, no Brasil e no exterior, como:
- Prêmio Liberté, Egalité, Fraternité, do governo francês, em 1998;
- Título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Brasília (UnB), sendo a primeira mulher negra a receber essa honraria na instituição;
- Reconhecimento de universidades, movimentos sociais e organizações internacionais pela sua contribuição à luta antirracista e feminista.
Esse conjunto de homenagens mostra como seu pensamento ultrapassa fronteiras e dialoga com debates globais sobre racismo, colonialismo, democracia e direitos humanos.
Sueli Carneiro, literatura e leitura: por que ela importa para quem ama livros?
Embora Sueli Carneiro seja mais conhecida por seus ensaios e textos teóricos, sua obra dialoga diretamente com a literatura afro-brasileira e com as discussões sobre representatividade no mercado editorial.
Para leitores e leitoras, sua produção:
- Amplia o repertório sobre literatura negra e escrita de mulheres negras;
- Ajuda a ler outros autores e autoras a partir de uma perspectiva crítica sobre raça e gênero;
- Incentiva a formação de clubes de leitura e projetos de mediação de leitura focados em autoras negras, especialmente no mês da Consciência Negra e ao longo de todo o ano.
Se você mantém um clube do livro, um projeto de leitura na escola ou uma biblioteca comunitária, incluir obras de Sueli Carneiro é uma forma concreta de fortalecer uma educação antirracista.
Como trabalhar Sueli Carneiro em sala de aula, clubes de leitura e projetos culturais
Para educadores, mediadores de leitura e produtores culturais, o pensamento de Sueli Carneiro oferece inúmeras possibilidades de atividades:
Sugestões de atividades
- Debate guiado sobre racismo estrutural a partir de trechos de Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil;
- Rodas de leitura com textos curtos da autora, seguidos de relatos de experiências dos participantes;
- Projetos interdisciplinares ligando filosofia, sociologia, literatura e história da população negra no Brasil;
- Produção de resenhas e podcasts sobre suas obras, incentivando estudantes a ocupar o espaço crítico e autoral.
Essas propostas não apenas aproximam os leitores da obra de Sueli Carneiro, como também ajudam a desenvolver o pensamento crítico e a leitura de mundo.
Dicas de livros e materiais para quem quer conhecer mais Sueli Carneiro
Para aprofundar a leitura, vale buscar:
- Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil (Selo Negro);
- Continuo Preta: a vida de Sueli Carneiro em primeira pessoa;
- Textos disponíveis no Acervo Sueli Carneiro e na Casa Sueli Carneiro, que reúnem artigos, entrevistas e registros históricos; Acervo Casa Sueli Carneiro
- Perfis e ensaios sobre a autora em portais como Literafro, Enciclopédia de Antropologia da USP e blogs de filosofia.
por que ler e divulgar Sueli Carneiro hoje
Ler Sueli Carneiro é muito mais do que estudar conceitos acadêmicos. É um convite a repensar o Brasil a partir da experiência de quem historicamente foi silenciado: as mulheres negras.
Para quem ama livros, educação e literatura, inserir Sueli Carneiro nas leituras é:
- Ampliar o cânone e questionar quem foi deixado de fora;
- Fortalecer projetos de leitura comprometidos com direitos humanos;
- Inspirar novas gerações de leitoras, leitores e autores negros.
No Consciência Literária, acreditamos que falar de leitura é também falar de diversidade, justiça social e transformação. Por isso, Sueli Carneiro ocupa um lugar central em qualquer lista de autoras essenciais do Brasil.
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